No universo de Round 6, a série sul-coreana que se tornou um fenômeno global, somos apresentados a uma competição mortal onde pessoas endividadas arriscam suas vidas por um prêmio milionário. Embora fictícia, a narrativa toca em temas profundamente reais, como a desigualdade social, a exploração dos vulneráveis e a falta de compaixão em sistemas que priorizam o lucro acima da vida humana. Mas o que muitos não sabem é que a Coreia do Sul já vivenciou algo assustadoramente semelhante: o caso Brothers Home, de 1986.
Brothers Home: A Realidade Cruel da Desumanização
Brothers Home foi um “centro de reabilitação” apoiado pelo governo sul-coreano durante o auge de seu regime autoritário e de sua busca por crescimento econômico acelerado. Oficialmente, o local tinha a intenção de reintegrar à sociedade pessoas sem-teto, crianças de rua e outros marginalizados. Na prática, tornou-se um campo de trabalho forçado onde milhares foram torturados, explorados e mortos.
Sob o pretexto de “limpar” as ruas e sustentar uma imagem de prosperidade, o governo fechava os olhos para os abusos sistemáticos cometidos. Afinal, o sacrifício de vidas humanas parecia um preço pequeno para manter o status de “milagre econômico” que a Coreia projetava ao mundo.
O Paralelo com Round 6
A crítica de Round 6 à desumanização dos pobres é clara. Na série, pessoas desesperadas são transformadas em peças de um jogo cruel, onde suas vidas são descartáveis para o entretenimento da elite. Isso ecoa diretamente o espírito do Brothers Home, onde os marginalizados da sociedade foram reduzidos a ferramentas descartáveis de um sistema que se recusa a reconhecê-los como humanos.
Ambos os casos refletem uma verdade perturbadora: em sociedades onde o lucro e a imagem são mais importantes que a vida humana, os mais vulneráveis sempre pagarão o preço mais alto.
A Crítica à Extrema Direita
Os paralelos entre essas narrativas sul-coreanas e a ascensão da extrema direita global são inevitáveis. Líderes de extrema direita, de Trump a Bolsonaro, promovem políticas que aprofundam desigualdades e priorizam interesses corporativos enquanto demonizam os mais pobres. A retórica da “ordem e progresso” frequentemente serve como fachada para práticas de desumanização, como cortes em direitos trabalhistas, desmonte de políticas públicas e o uso de violência estatal contra populações vulneráveis.
Assim como na Coreia do Sul dos anos 80, o autoritarismo de direita contemporâneo busca invisibilizar os marginalizados, relegando-os ao silêncio ou à exploração. Round 6 expõe essa lógica perversa ao transformar os desamparados em peças de um jogo mortal, uma metáfora que poderia muito bem descrever a realidade de muitos países que hoje seguem a cartilha neoliberal e autoritária.
A Lição de Round 6 e Brothers Home
Tanto a ficção de Round 6 quanto a realidade de Brothers Home nos alertam para os perigos de regimes e sistemas que tratam seres humanos como descartáveis. Ao mergulharmos na história da Coreia e refletirmos sobre as mensagens da série, fica claro que resistir à desumanização deve ser um objetivo central de qualquer sociedade que se pretenda justa.
A extrema direita, com seu desprezo pelos direitos humanos e sua idolatria ao capital, representa a perpetuação desse ciclo de exploração e violência. Nosso papel, enquanto cidadãos conscientes, é rejeitar essas práticas, combater a desigualdade e construir um mundo onde ninguém seja reduzido a um número ou a uma peça descartável de um jogo cruel.
Round 6 nos cativa com seu suspense e seus personagens, mas sua verdadeira força está na crítica poderosa que faz ao sistema. Ao lembrar do caso Brothers Home, somos confrontados com a realidade de que, em muitos lugares, essa distopia já foi (e ainda é) real. A resistência a essas forças desumanizantes é essencial — e deve começar pela denúncia incansável das práticas e ideologias que perpetuam o sofrimento dos mais vulneráveis.
